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Do que se espera de um salão de arte - parte 1/2

Fluxograma criado pelo Coletivo Repartição Pública que integra o catálogo do projeto Educativo // Paralelo
Por Leonardo Araujo

Em muitos casos os salões de arte espalhados por todo o Brasil são a única saída para artistas em inicio de carreira, como o único lugar que abrange a possibilidade de atrair olhares a uma produção relativamente considerada jovem no sistema de arte. Talvez seja a partir dessa necessidade de saída que muitos dos artistas que circulam entre os salões ainda se apoiam nas reverberações de suas experiências. E talvez seja por isso que a pouco tempo alguns salões, como o próprio SAC (Salão de Arte de Contemporânea de Piracicaba) vem apoiando e disseminando tais iniciativas ousadas e preocupadas desses artistas.


Logicamente que isso somente se deve com a participação efetiva de uma comissão de seleção que de ante mão espera receber projetos que ultrapassem o olhar simplista da estética. “Assim foi do mesmo modo quando me coloquei a selecionar projetos de artistas. Esperava esperançoso trabalhos que demandassem algum tipo de preocupação em discutir a ideia de arte contemporânea hoje, relevância com temas e principalmente ao que o próprio trabalho poderia ter enquanto proponência” - esse caso apenas para aqueles artistas que veem trabalhando com projetos específicos para cada salão, que sintonizam de uma forma poética ou não seus interessem junto ao contexto que cada salão de arte apresenta, tanto geograficamente, culturalmente como conceitualmente e historicamente.

A experimentação é um contraste largamente visível na seleção final de um salão de arte. Mas aqui não se coloca experimentação no sentido de experimentar materiais ou causar qualquer sensação de experiência desconhecida ao público como muitos artistas têm feito a muito tempo, fala-se de experimentação aqui quando um trabalho denota certa pesquisa e olhar direcionado a algumas questões dentro da arte, de seu sistema e/ou até mesmo no contexto específico da cidade que situa um salão de arte contemporânea. A experimentação esta dentro da preocupação, essa que o coletivo Repartição Pública tem apresentado em seus trabalhos.

O Repartição Pública, hoje formado por Fernando Sala, Gabriel Lemos, Isabella Rjeille, João Carlos Teixeira e Ronan Cliquet, se constitui no final de 2009 na cidade de São Paulo por estudantes do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. O início de sua atividade se deu com um projeto bastante audacioso e melhor dizendo, irônico. Para isso com o pressuposto da expressão “eu tenho licença poética”, contentemente utilizada por artistas de diversas instâncias de produção (música, teatro, artes plásticas e etc), é que ultrapassam com seus trabalhos barreiras, tabus, regras e até mesmo a própria lei que rege nosso sistema social. Justamente com esse entendimento burocrático, Repartição Pública tem atuado em diversos eventos relacionados a cultura vendendo e produzindo documentos que garantem ao público usufruir de tal licença para agir em liberdade nos lugares que possa existir interesse em realizar algum tipo de trabalho. A ‘Licença Poética’ funciona divertidamente para aqueles artistas que tem consciência das dificuldades de trabalhar hoje com o montante de regras que lhes “atrapalham” no conceber de alguns projetos.

Licença Poética - Repartição Pública
Obviamente esse documento realizado pelo Repartição Pública não tem uma validade legal perante nossa sociedade, mas é ele que nos oferece certeza das consequências que um trabalho de arte pode receber após sua realização.
Não só com a seleção desse coletivo o Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba tem em muito surpreendido com suas edições, em especial o atual 43˚ SAC e o último 42˚ a ser realizado. Também, quando Igor Vidor foi selecionado com o ‘Surf Residence Programme’ ano passado no SAC, o que lhe rendeu prêmio aquisição, esse salão demonstrou claro interesse em novas formas de pensar a produção em arte hoje. O trabalho de Vidor é uma série de objetos e fotos que apenas representam o que o artistas se propôs a fazer em uma praia no litoral norte do estado de São Paulo. Convidando alguns amigos artistas e professores Vidor criou uma residência para se aprender a surfar, diferentemente do que estamos acostumados no circuito de arte em que artistas se colocam fora de seus contexto para ter a experiência de produzir junto a outros artistas de diferentes lugares do mundo em diversas residências artísticas. Mesmo assim, o trabalho de Igor Vidor não está na forma em que ele achou para representar o que aconteceu nessa tal residência, mas sim no que foi experienciado nessa praia, ou até mesmo, no propósito de mudar o parâmetro do que comumente se espera quando um artista se demanda a criar espaços de convívio para outros artista, pois espera-se produzir arte através de um pensamento na ou para a arte.

Surfe Residence Programme - Igor Vidor
E justamente subvertendo a ordem que Igor Vidor nos surpreendeu novamente quando foi selecionado no salão Arte Pará 2010 com o projeto ‘Mais um dia em Belém (ou Artista EM hospitalidade)’. Com outro trabalho ainda mais preocupado, Vidor pesquisando como poderia enviar objetos de arte de São Paulo à Belém e consequentemente descobrindo que tal façanha era inviável financeiramente. Vidor se demonstrou artista, teve a ideia de se mover para Belém para o dia do vernissage do salão, vestindo uma camiseta com a escrita “mais um dia em Belém” e a bagagem em mãos Vidor iniciou o projeto, conversando com diversas pessoas para saber da possibilidade de se hospitalizar em suas casas. Esse era seu trabalho, hospitalizar-se numa cidade que nunca havia visitado, em casas desconhecidas com pessoas desconhecidas. O trabalho de Vidor é a experimentação na arte, no como propor a se pensar arte e sua poética é a experiência que ele causa a si e a outros, mas a base de tudo isso é seu olhar, Igor Vidor alcança as dificuldades que ele mesmo encontra nos projetos de pesquisa dos contexto que o artista se propõe a vivenciar.

Mais um dia em Belém (ou artista em hospitalidade) - Igor Vidor

*Texto originalmente publicado no catálogo do 43˚ Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba, produzido como trabalho de arte pelo coletivo de arte Repartição Pública com o projeto Educativo // Paralelo.


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